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| Região rural do Município de Buíque, Pernambuco, nas terras da Fundação Terra |
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Igreja no distrito de Umburanas, Município de Sertânia, Pernambuco |
O Bendito é uma das mais antigas manifestações de religiosidade popular da era cristã e que ainda persiste em algumas comunidades, principalmente interioranas e rurais do nordeste brasileiro.
Segundo frei Francisco van der Poel OFM , um dos maiores estudiosos desse tema, revela que no seu “Dicionário Musical” o frei Pedro Sinzig OFM define os benditos simplesmente como cantos sacros populares. Referindo ao, talvez, maior folclorista brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, elabora um pouco mais esta definição:
"Os benditos são cantos religiosos com que são acompanhadas as procissões e, outrora as visitas do Santíssimo. Denomina o gênero o uso da palavra "bendito", iniciando o canto uníssono." Finaliza, citando outro renomado folclorista, Rossini Tavares de Lima, que, “no seu abecê do folclore, explica ainda que o bendito é uma oração cantada cujos versos fazem menção à expressão "Bendito louvado seja" ou apenas à palavra "Bendito".
No entanto, na definição popular, segundo Poel, “benditos são os cantos populares da tradição oral, cantados em novenas, terços e procissões. Entre estes se destacam os cantos que começam com as palavras "Bendito e louvado seja".
Apesar dos cantos benditos estarem presentes na maioria das seqüências deste documentário, não se trata de um musical da religiosidade popular do sertão nordestino. Registrar A VOZ, a oralidade das mulheres cantando, orando, falando, rindo, chorando, será o cerne da questão, uma vez que o documentário quer registrar memórias.
O termo memória tem sua origem etmológica no latim e significa a faculdade de reter e /ou readquirir idéias, imagens, expressões e conhecimentos adquiridos anteriormente reportando-se às lembranças, reminiscências.
Antes da invenção da escrita, todo o saber era transmitido oralmente. A memória humana (essencialmente a auditiva) era o único recurso de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações. A inteligência, portanto, estava intimamente relacionada à memória. Os mais velhos eram reconhecidos como os mais sábios, já que detinham o conhecimento acumulado. A figura do mestre, aquele que transmite seu ofício, também exerce um papel importante nessas sociedades.
O "pensamento mágico", a despeito dos aspectos teológicos, desempenha uma função mnemotécnica nas sociedades sem escrita. O mito encarna, através dos deuses, dos feitos de seus heróis e ancestrais, as principais representações de uma comunidade. Segundo Lévy, esse tipo de narrativa era a melhor estratégia de codificação à disposição das culturas que não possuíam outro instrumento de inscrição além da própria memória. "As representações que têm mais chances de sobreviver em um ambiente composto quase que unicamente por memórias humanas são aquelas que estão codificadas em narrativas dramáticas, agradáveis de serem ouvidas, trazendo uma forte carga emotiva e acompanhadas de músicas e rituais diversos".
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Alguns autores também denominam as sociedades que antecedem à escrita como sociedades tradicionais, já que nelas o conhecimento é passado de geração a geração por meio da tradição. Para que determinado saber ou fazer se perpetue é necessário que seja escutado, observado, imitado, repetido e reiterado. A noção de tempo está mais ligada à idéia de ciclos que se repetem do que a de acontecimentos que se sucedem.
A temporalidade nessas sociedades é, portanto, marcada por um movimento circular de "eterno retorno".
Nessas comunidades em que faremos o documentário, grande partes das mulheres cantoras são analfabetas, detentoras, portanto, dessa oralidade que, vai se apagando à medida em que elas envelhecem e morrem, e não são quantitativamente substituídas por outras.
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Esses cantos populares tradicionais estão sendo esquecidos, apagados. Nessa era tecnológica, a cultura da oralidade vai deixando de existir.
Daí a importância de desse documentário deixar um legado audiovisual para as futuras gerações. Resgatar, valorizar e difundir estes cantos de louvação que, além disso, retratam a vida da gente sertaneja, é o que nos propomos. Fazer chegar às novas gerações, principalmente nas grandes cidades, que com o processo de massificação e globalização, ficam alheias a essas manifestações.
O mais impressionante é que esses cantos são oficialmente proscritos da liturgia católica desde 1890, mas de forma surpreendente não só resistem como também se renovam.
O resultado, espera-se, seja um retrato de uma tradição que, com a globalização da “chamada cultura de massa” e, com a proscrição imposta pela igreja católica, está prestes a desaparecer em curto período futuro.
O projeto já foi aprovado pelo BNB Cultural e terá suas gravações iniciadas em junho deste ano nos Estados de Pernambuco, Paraíba e Ceará.
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