"AIDS E PRECONCEITO OU A PERNALONGA DA HISTÓRIA "
Wilson Freire

Imagens do longa "Outras Cenas da Vida Brasileira", de Jomard Muniz de Britto com Roberto França, o Pernalonga; que fazem parte do documentário "AIDS e Preconceito ou a pernalonga da história"

De que morre uma pessoa, um brasileiro?
Dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha, afirma que esse seu filho “morreu de Brasil”. E Antônio Roberto Lira França, mais conhecido como “Pernalonga”, que viria a ser um dos nomes mais conhecidos da cena teatral do Estado de Pernambuco, morreu de que? “De Morte Morrida” ou Morte Matada”?

Na década de 80 ele foi um dos primeiros a ser diagnosticado com sendo portador do HIV. Naquela época, sem o arsenal terapêutico dos dias atuais, o diagnóstico era como ganhar um selo de morte prematuramente anunciada. Enquanto a doença dizimava a maioria dos soropositivos, ela não se manifestava clinicamente em Pernalonga.

Consciente do que representava para a comunidade em que vivia, engajou-se em movimentos de esclarecimentos junto às comunidades gays e escolas da rede pública da região metropolitana do Recife, principalmente em Olinda, levando, através de esquetes teatrais ensinamentos de como se evita a contaminação pelo até então letal virus.




Por ironia do destino, os jornais, que tantas vezes anunciavam suas performances teatrais e noticiavam suas palestras educativas de prevenção, no ano 2000 anunciavam :

 

Morte de ator causa polêmica
Morte de Pernalonga


“Foi enterrado às 16h de ontem, no Cemitério de Guadalupe, em Olinda, o ator Antônio Roberto de Lira França, 41 anos, mais conhecido como Pernalonga. Ele faleceu na manhã do último sábado, por volta das 7h, no Hospital da Restauração (HR).

O ator tinha sido atingido por uma facada na perna direita, abaixo do joelho, após ser vítima de um suposto assalto no início da madrugada do sábado, nas proximidades de sua residência, no bairro de Umuarama, também em Olinda. Segundo a família, Pernalonga - que era soropositivo há 15 anos - faleceu somente por não haver recebido socorro a tempo, já que vizinhos teriam se recusado a levá-lo ao hospital, com medo de contaminação. Segundo relato de conhecidos, o ator estava com amigos em um bar, no Varadouro, até pouco depois da meia-noite, quando resolveu ir a pé para casa. Ele teria sido assaltado na entrada do bairro, local onde foi encontrada sua carteira com todos os documentos, mas sem nenhum dinheiro. A família comentou que, após ser esfaqueado, Pernalonga teria pedido ajuda aos vizinhos. Nenhum deles se prontificou a socorrê-lo. Somente às 3h30, após perder muito sangue, o ator teria sido levado para o HR por uma viatura da Polícia Civil, conforme revelou o pai, o eletricista Bartolomeu França, 63. Há dois anos, durante tentativa de assalto, Pernalonga foi atingido no pescoço por um golpe de faca. Além de ator e fundador do espaço Vivencial Diversiones, no Complexo de Salgadinho, o artista tinha, atualmente, cargo comissionado na Prefeitura de Olinda, atuando como gerente do Teatro do Bonsucesso. Ele realizava freqüentemente palestras para turmas de adolescentes sobre prevenção à Aids. De acordo com a família, parte das vísceras foram doadas para exames em uma universidade francesa. "O médico disse que o organismo dele era muito forte, pois a doença não tinha comprometido nenhum órgão", destacou o pai. O corpo de Pernalonga foi velado durante todo o dia de ontem no Mercado Eufrásio Barbosa”.

Cenas do vídeo "Ou (si) dá ou desce", com direção de Sérgio Gusmão e roteiro de Wilson Freire; que fazem parte do documentário "AIDS e Preconceito ou a pernalonga da história" .

Este documentário visou reconstituir a trajetória de vida de Pernalonga que,quando criança, escapou da mortalidade infantil, de virar “anjo”, que escapou de morrer da violência que mata muitos dos jovens das periferias das grandes cidades, que rompeu com os tabus da igreja na qual fora educado, e assumiu-se logo cedo gay, que agitou e escandalizou censores e conservadores, sendo também um dos primeiros soropositivos para HIV diagnosticado e de não sucumbir em razão dessa enfermidade, mas que, pelo preconceito que tantas vezes combatera, foi vítima fatal.

  O documentário “AIDS e Preconceito ou a
Pernalonga da História”
recebeu menção
honrosa no Festival de Vídeo do Recife de
2005.
 

Informações técnicas
O documentário "AIDS e Preconceito ou a pernalonga da história"é um video Institucional da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco
Pesquisa: Ana Brito
Roteiro e direção: Wilson Freire
Assistente de direção: Hamilton Costa
Produção: Hamilton Costa
Fotografia: Mariano Maestre
Assistente de som
e iluminação :
Ramiro Quevedo
Edição: José Gomes