“PROJETO SÓCIO - POLÍTICO SALVA O POVO XUKURU DA EXTINÇÃO E É PREMIADO PELA FUNDAÇÃO FORD"
Texto: Luciene Zanchetta

O povo xukuru, etnia localizada na região pernambucana da Serra de Ororubá, recebeu em 2007 o prêmio Gestão Pública e Cidadania da Fundação Ford, com o programa "Organização sócio-política do povo xukuru de Ororubá". O objetivo do projeto foi a reorganização sócio-política da etnia, assim como a valorização e afirmação da identidade indígena do povo xukuru.

Língua e educação
Os xukurus do Ororubá perderam a língua nativa no percurso de quase 400 anos de contato com a civilização branca. Alguns vocábulos foram resgatados, mas o idioma é considerado morto. Apesar disso, a etnia possui um projeto de educação específica, coordenado por um conselho de professores xukuru, responsável pelo livro xukuru, filhos da mãe natureza — uma história de resistência e luta a partir de relatos dos conhecimentos e costumes, revelados a partir da tradição oral. Outra ação dos xukurus refere-se, agora, à criação do magistério indígena, junto à Secretaria Estadual de Educação, para dar continuidade ao processo de educação diferenciada e intercultural garantida pelo Conselho Nacional de Educação.

Demarcação e recuperação de terras
Assumindo o discurso dos grandes proprietários de terras, entre 1860 e 1880, o governo imperial decretou oficialmente a extinção dos aldeamentos em Pernambuco, para resolver os conflitos causados pelas invasões dos territórios indígenas da região. O argumento usado era a ausência da pureza racial, afirmando que os índios da região não mais existiam, pois estavam confundidos com a massa da população. A extinção das aldeias e o loteamento das propriedades indígenas, entre elas as dos xukurus, culminou com a perseguição de seus descendentes ou no paradoxo da contratação dos índios possuidores de terras como bóias-frias em seus próprios territórios.

Os xukurus eram considerados extintos até o início do século XX. A partir de então, começou um século de lutas pelo reconhecimento étnico e a garantia das terras. A homologação dos 27.555 hectares de terras pertencentes ao povo xukuru só ocorreu, definitivamente, em maio de 2001. No final dos anos 1980, os xukurus ocupavam menos de 10% do seu território. Após um violento processo de demarcação das terras, cerca de 70% do território foi retomado pelo povo xukuru, que possui hoje uma população de aproximadamente nove mil indígenas, distribuídos em 24 aldeias.

Foi um processo de recuperação das terras bastante conturbado, lembra o cacique, com assassinatos e perseguições permanentes nos últimos anos. Entre essas mortes está a do cacique Xicão, pai de Marcos, assassinado em 1998, durante sua luta pela demarcação das terras. O cacique Xicão foi considerado uma liderança expressiva na luta pelas garantias dos direitos indígenas do Nordeste e em todo o Brasil, tendo recebido ameaças e escapado de emboscadas, promovidas por fazendeiros contrários à demarcação de terras, por cerca de dez anos.

Anistia internacional
O drama dos xukurus ilustra situações reais vividas por grande parte dos povos indígenas do país. Como o pai, o atual cacique Marcos xukuru também vem sofrendo ameaças de morte por sua luta pela terra e já escapou de uma emboscada em que dois companheiros seus foram assassinados. Em decorrência do não-cumprimento da disposição da Organização dos Estados Americanos (OEA) por parte do Brasil, a organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional convidou Marcos para apresentar a história do seu povo a políticos, ONGs, associações religiosas e jornalistas de países como a Bélgica, Espanha, França, Suíça e Holanda, em 2004.

Movimento social inovador
Segundo o estudo, "Índios e Parlamentos", realizado pelo Instituto de Estudos Sócio-Econômicos (Inesc), com o apoio da Oxfam e da Fundação Heirich Boll, o movimento indígena se encontra entre os principais movimentos sociais da América Latina. Diversos autores vêem nele uma força inovadora semelhante ao papel que a "classe trabalhadora" teve ou tem em relação a possibilidades de mudança social, afirmada por autores de ciências sociais.

Fonte: © 2007 Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, in Cienc. Cult. vol.57 no.3 São Paulo July/Sept. 2005